Curitiba é o polo latino-americano do psychobilly
Músico e pesquisador fala sobre a trajetória do interior à capital, a cena underground curitibana, os Catalépticos, o Psycho Carnival e os desafios de transformar o festival em patrimônio cultural
Entrevista com Celso, músico e pesquisador da UFPR, concedida a Gabbie Gregório.
Gabbie — Celso, você é de Guarapuava e veio para Curitiba para estudar música. Como essa trajetória do interior para a capital te deu uma perspectiva única sobre a formação da cena psychobilly paranaense? Existe uma identidade musical específica do Paraná que se manifesta no gênero?
Celso Costa — Eu vim para Curitiba há pouco mais de 20 anos, vindo do interior do Paraná, com a finalidade específica de estudar música e conhecer um cenário musical maior. Guarapuava tem uma cena profícua de bandas — tinha, até o começo dos anos 2000, quando eu vim embora. Mas sempre faltaram ali centros de formação de excelência para músicos: conservatórios, cursos universitários, um conteúdo acadêmico que ampliasse a possibilidade de trabalhar a arte de forma mais ampla e também mais técnica.
Nesse primeiro momento, vim para Curitiba, comecei a tocar em bandas por aqui e me inseri no contexto da cena musical. Descobri que aqui havia várias cenas. Comecei tocando metal, depois fui tocar música brasileira, e percebi que muitos desses músicos e espaços eram compartilhados. Foi assim que conheci o psychobilly. Eu já tinha conhecimento das bandas, sabia que existia uma banda muito importante aqui em Curitiba, os Catalépticos, mas nunca tinha visto ao vivo. Tive conhecimento da cena psychobilly e me encantei, depois de conhecer o Psycho Carnival, esse festival tão relevante para a América Latina.
Essa é uma das perguntas que os pesquisadores tentam responder: se o Paraná possui uma característica própria dentro da sua arte. De forma fragmentada para a música, posso dizer que existem elementos sim, e trabalhamos inclusive com alguns conceitos acadêmicos, como o “sotaque sonoro”, que passa pela área da linguagem. Você tem a ideia do rock, da música latente que a gente fala, muito característica da nossa região. Mas, musicalmente falando, ainda não conseguimos identificar com precisão um elemento que seja característico exclusivamente do Paraná.
Temos algumas culturas que chamamos de tradições inventadas, como o Fandango, a Folia de Reis, a Festa do Divino, que acontece principalmente na região litorânea com a cultura caiçara. O que percebemos é um movimento muito grande de bandas tentando inserir esses símbolos dentro de sua temática: a estética do pinhão, a ideia dos petipaus, uma característica bem curitibana. Mas a forma de organizar música passa por um compêndio de várias culturas, porque o Paraná é um estado multifacetado. Os fazeres musicais dificilmente são dissociados do contexto em que são feitos.
O Paraná tem uma cultura multifacetada, multicultural. Existe uma cultura afro presente, uma cultura europeia, principalmente dos imigrantes do começo do século XX, e outros fluxos migratórios que transformaram o Paraná nesse mosaico. Ele não é um lugar tão homogêneo; é bastante heterogêneo. Portanto, a cultura paranaense e o psychobilly saem bastante heterogêneos. Mas podemos dizer que há uma banda divisora de águas aqui em Curitiba: os Catalépticos. Eles transcenderam a barreira do psychobilly, fizeram turnês fora do Brasil e foram meio que equivalentes ao Sepultura, ao psychobilly. Conseguiram cravar o nome do Brasil e elevaram, de forma mais extrema e com uma organização própria, a característica de que existia uma cena psychobilly brasileira. Tanto que Curitiba é o polo latino-americano do psychobilly, onde estão as principais bandas e movimentos, maior inclusive do que grandes centros como São Paulo.
Gabbie — Em uma das análises sobre sua trajetória como pesquisador da UFPR, você mapeou mais de 150 bandas de metal ativas em Curitiba. Como essa pesquisa acadêmica dialogou com a prática do Psycho Carnival e como as duas cenas funcionaram dentro do festival?
Celso Costa — Esse trabalho de catalogação foi minha dissertação de mestrado. Ele foi desenvolvido à parte, porque no meu TCC eu fiz um trabalho sobre o Psycho Carnival, que estava completando então 20 anos. O título é “Psycho Carnival: 20 anos de resistência”. É resistência de várias formas: simbólica, financeira, enquanto cena. Porque o psychobilly é o nicho do nicho do nicho. É um subgênero bastante nichado.
Percebi que vários músicos transitavam em várias cenas. O Psycho Carnival começou, a priori, como um evento de psychobilly, mas foi ampliando as fronteiras dentro do underground. Percorreu o caminho lógico desses subgêneros próximos: surf music, rockabilly, punk. Afinal, o psychobilly é uma mescla de punk com rockabilly e outros elementos. Essa cultura pop também voltada a filmes B de horror, a quadrinhos. Todo esse universo da cultura pop está inserido de alguma forma dentro do psychobilly.
Muitos desses músicos de psychobilly de Curitiba também tocavam em outras bandas: punk, metal. Existe essa interseção. E o psychobilly tem muitos elementos do metal: agressividade, aquela pulsação mais rígida. São elementos convergentes. O psychobilly tem uma pegada bastante metaleira, ao mesmo tempo que prioriza o punk. Talvez não seja metaleira, mas é uma verve agressiva. O elemento agressividade está em comum com o heavy metal.
Na catalogação das 150 bandas, percebemos que uma boa parte delas não sabia o que era psychobilly. Ao mesmo tempo que há uma interseção com músicos que transitam dentro do underground, existem outros músicos que não têm ideia de uma cena que acontece dentro da sua própria cidade.
Gabbie — Você mencionou o uso de etnografia em shows, descrevendo luz, sonorização, comportamento. Como essa metodologia científica aplicada ao underground pode nos ajudar a entender não apenas a música, mas também os rituais sociais e a construção de comunidade em torno do festival?
Celso Costa — Essa interseção vem muito da linha de pesquisa da qual eu faço parte, a etnomusicologia. Ela é um avanço da musicologia histórica, que trabalha principalmente com documentação, com históricos, com partituras. A etnomusicologia surgiu depois do advento da gravação. Graças à gravação, conseguimos registrar, e a partir disso foram se desenvolvendo teorias em que os fazeres musicais não estão dissociados do seu entorno.
Também se coloca esse agente dentro da perspectiva da música. Esses fazeres eram muito restritos à academia, dentro do intramuros. Quando você percebe, por exemplo, um músico de rua, um músico de uma comunidade, um líder de determinada comunidade, não conseguia quantificar dentro dessa questão acadêmica. A etnomusicologia também dá voz a esses músicos que muitas vezes são invisibilizados.
É uma área transdisciplinar, em que você trabalha entre várias áreas do conhecimento. Utilizamos técnicas de registro e quantificação de dados que vêm de outras áreas. A etnografia, por exemplo, vem muito da geografia. Você descreve um evento, coloca sonorização, porque isso é muito evidente para quem está dentro da cena, mas para quem não conhece um cenário é importante ter essa ideia de como funciona. Fazemos mapas digitais, trabalhamos com muita cartografia digital por conta disso.
Esses trabalhos, além de darem entrada no meio acadêmico, também se tornam base para a justificativa de projetos culturais. Dentro dessa ideia de estudar música, entendemos que ela também não está dissociada das políticas públicas, de como o poder público pode abrir espaço e deve colaborar. Todas as culturas que são legitimadas, seja no Brasil ou fora, têm esse trânsito dentro da universidade, essa legitimação por parte da academia. Muitas vezes o roqueiro era jogado de lado. Existe agora um movimento de pesquisadores roqueiros que tentam colocar e justificar isso.
Curitiba é uma cidade absolutamente roqueira. Tem um número gigantesco de eventos, cada vez mais shows. Provavelmente é a segunda ou terceira cidade do Brasil em se tratando de rock, principalmente por causa dos grandes eventos. Grandes bandas, sempre que fazem turnê pelo Brasil, passam por Curitiba. O público curitibano é muito consumidor do que é feito fora daqui, e também consome de certa forma o que é feito aqui. Mas uma questão é a valorização, aquele orgulho. Esse é um trabalho que entendo como um grande mosaico. É importante que exista o meio acadêmico endossando e afirmando tudo isso, fazendo uma análise séria, uma pesquisa, entendendo quais são as questões, os problemas e as virtudes dessa cena.
Gabbie — Nas suas viagens internacionais com Six Six Sinners, você percebeu que bandas do mundo todo citam os Catalépticos como referência. Na sua análise como músico e pesquisador, existe uma assinatura sonora específica do psychobilly feito em Curitiba? Quais elementos técnicos ou estilísticos os diferenciam?
Celso Costa — Os Catalépticos foram os vanguardistas aqui da história. Transformaram a sonoridade, colocaram uma sonoridade extrema de uma forma bastante orgânica. Isso se baseou em muito ensaio, de acordo com as entrevistas que fiz com os integrantes, com muita prática. Eles tiveram algo novo a mostrar. O psychobilly é um estilo que tem certa rigidez em alguns termos, mas eles conseguiram marcar uma inovação ali nos anos 90, e isso gerou uma série de outras bandas aqui em Curitiba.
Nessa esteira dos Catalépticos, e percebendo também nessas viagens internacionais que pude fazer com Six Six Sinners — que, para quem não sabe, tem dois integrantes que eram dos Catalépticos —, percebo o tamanho do respeito que as pessoas têm por eles lá fora, como alguém que realmente criou alguma coisa. É muito importante e interessante. Eles não vão lá para contribuir como mais uma banda da comunidade psychobilly. Toda vez que fomos com Six Six Sinners, e pelo que eles me retrataram com os Catalépticos, existia essa respeitabilidade. É como ver gente abordando Vlad Coxinha nos festivais. É impressionante: pessoas com autógrafo tatuado deles. Era quase nível de idolatria, tamanha a importância desses rapazes para a nossa cena. Além de tudo, Vlad encabeçou o Psycho Carnival, que é um festival de suma importância.
A contribuição dos Catalépticos para a comunidade internacional foi trabalhar o psychobilly de uma forma extrema, mas de uma forma extrema particular. Não era porque existiam psychobillies extremos fora daqui e muito voltados ao metal, mas pela forma como eles construíram a coisa. O peso era muito orgânico. Era uma guitarra sem distorção, mas extremamente ruidosa e distorcida. Eu acho que esse peso, essa pressão sonora, é a contribuição curitibana para o psychobilly mundial.
Gabbie — O Psycho Carnival movimenta microempreendedores, produtores e técnicos. Na sua visão, qual é o impacto mais profundo desse ecossistema na economia criativa de Curitiba? Existe uma profissionalização que se espalha para outras cenas musicais a partir do modelo do festival?
Celso Costa — Ano a ano a gente percebe como a economia criativa está se transformando e como o Psycho Carnival é um dos vetores para isso. Começou como um festival num bar, apenas num bar, num lugar pequeno, uma reunião de amigos. A coisa foi aumentando até que entraram os expositores, num amálgama dessa parte da cultura alternativa. Lá você tem body piercers, tatuadores, pessoas que vendem roupas específicas, vestimentas, alimentação, discos. Tudo isso tem muito a ver com essa cultura alternativa, em que a música que você ouve também demonstra o que você pensa e como você se posiciona nesse mundo.
Os punks, voltados ao veganismo, por exemplo, têm espaço dentro do Psycho Carnival. O festival tem feito um trabalho de base, trabalhando com muitas comunidades. A gente sempre acolhe o público LGBT, é psychobilly friendly, também acolhemos muitas bandas com mulheres. Afinal, as mulheres merecem cada vez mais espaço para demonstrar sua sonoridade e sua arte. Muitas dessas são mulheres empreendedoras. Contamos muito com essas comunidades que muitas vezes não têm espaço em muitos eventos da prefeitura, por exemplo, e podem ficar um pouco escanteadas. Dentro do Psycho Carnival, ele consegue trabalhar com isso.
Além disso, trabalhamos a parte social. Sempre existe uma contrapartida do festival. Fazemos palestras, por exemplo, quando trouxemos o Black Pantera em 2024. Eles fizeram uma fala no Manifesto Café sobre a questão do racismo no Brasil e como viam a questão racial em Curitiba, já que é uma banda com projeção nacional. É sempre importante ter essa troca, esses câmbios, e o Psycho Carnival permite isso.
É muito interessante porque vem gente literalmente do mundo inteiro para o Psycho Carnival. Na última edição, trouxemos bandas de oito ou nove países diferentes: Rússia, Venezuela, Europa em geral. Esse câmbio também traz um pouco de Curitiba, e eles sempre se surpreendem. O que eles perguntam sempre é que têm outra imagética do Brasil. Imaginam o Brasil mais com aquela ideia aproximada do Rio de Janeiro, de São Paulo. Quando vêm para cá, veem uma cidade extremamente organizada, uma cidade um pouco diferente. Curitiba tem uma coisa especial, é uma cidade muito acolhedora ao mesmo tempo. Por ter esse trânsito muito grande de culturas coexistindo, ela está cada vez mais aberta.
Entendo que o Psycho Carnival tem profunda importância para a cena curitibana. Nosso trabalho é cada vez mais legitimar o festival. Ele já faz parte da programação oficial do calendário da Fundação Cultural de Curitiba, mas tem que ser tombado também. Já está indo para sua 25ª edição, já revelou várias bandas, trouxe muita coisa e executa trocas. Muitas bandas brasileiras estão indo para fora por conta dessa troca de contatos, dessa troca de canais dentro do Psycho Carnival. Entendo ele como um exemplo de sucesso dentro do underground, mas que todo ano é com muita luta e sempre é incerto. A gente nunca sabe se a conta vai fechar no final.
E quando falo de conta, não é querendo somente capitalizar, porque sempre temos a prioridade de trabalhar com os músicos e tratá-los com dignidade. Todo músico que toca no Psycho Carnival recebe cachê. Todas as bandas, todos os artistas que trabalham, todo mundo colabora. A ideia é que também essas pessoas possam sobreviver dignamente da sua arte, e não apenas atuar como um hobby. Para quem quiser se aventurar nessa vida do underground, que não é nada fácil, é importante que eventos como o Psycho Carnival fomentem mais essa cultura e sejam cada vez mais longevos, com cada vez mais duração para a população.
Gabbie — Com isso também vem a importância das leis de incentivo, algo que você já falou na prática. Como o apoio do poder público, incluindo emendas parlamentares, transformou a capacidade do festival de trazer bandas internacionais e valorizar artistas locais?
Celso Costa — Esse é um grande dilema que a gente vive ainda. O Psycho Carnival é um evento que, apesar de ter essa diversidade e já ter um público constituído, no final das contas ainda depende das emendas para conseguir angariar fundos para transporte de músicos, passagens aéreas, hotel, hospedagem. Você tem uma logística muito grande, trabalhando com seis, sete bandas por noite. No festival todo, passa quase 200 músicos pelo palco do Psycho Carnival. É uma coisa gigantesca nesse aspecto.
Pouquíssimas bandas, pouquíssimos artistas usufruem das leis de incentivo. Ainda está acontecendo um entendimento dos músicos. O que percebo, conversando informalmente e entrevistando, é que os músicos de rock não se sentem legítimos para ir lá e acessar essas verbas. Temos aqui a Lei Aldir Blanc, a Lei Paulo Gustavo. Essas leis são muito dificultosas nesse aspecto, porque começaram a ser popularizadas nesse momento e fomentam bastante a música brasileira, que é importante que se fomente. Mas o rock é uma parte da identidade curitibana. É importante que esses grupos cada vez acessem mais o poder público.
O Psycho Carnival todo ano escreve para editais e infelizmente ainda não conseguimos ser contemplados. Esperamos conseguir, porque estamos trabalhando a fundamentação e entendemos o tamanho da importância do festival. O poder público é até um apelo que fazemos: um poder público que valorize a cultura local, valorize a cultura tradicional, mas que também tenha um festival do tamanho do Psycho Carnival, que transcende barreiras e é uma baita vitrine. Todo ano a gente recebe músicas das principais bandas do estilo falando: “Eu quero tocar no Psycho Carnival, quero voltar para o Psycho Carnival”.
Principalmente porque também implantamos o modelo europeu no festival. É um festival que não tem atrasos. Tentamos manter uma cultura em que esse roteiro vai ter respeito não somente com os músicos, mas também com o público que está lá. É algo desagradável você marcar o festival para começar, por exemplo, às 8 da noite, e a primeira banda tocar às 11. Toda a programação é colocada com antecedência. Existem músicos que não estão acostumados a esse formato. Boa parte do público, tivemos que fazer um trabalho quase educativo, porque uma parte perdia os shows e ficava brava. A gente explicava: “Olha, vai ser sempre no horário”. No outro ano, todo mundo estava no horário. Isso é muito legal porque você vai mudando a mentalidade de uma cena. Não é porque é independente que tem que ser bagunçado.
Todas essas iniciativas são importantíssimas para fomentar. E, vivendo no mundo capitalista, a gente precisa de suporte financeiro. As leis de incentivo estão aí. A cultura emprega, distribui renda e é um vetor tão importante quanto qualquer outro na sociedade, tão importante quanto o agronegócio, quanto a indústria. Sem cultura, a pandemia nos mostrou o quanto a cultura é importante para a gente sobreviver e se expressar. Tendo acesso a essas verbas, as coisas se facilitam. Você viabiliza produções, viagens de músicos, todo esse intercâmbio. Quem ganha é a cidade, não só recebendo esses talentos, mas enviando talentos para fora também. Esse, para mim, é o ponto-chave: que o poder público olhe com mais atenção, porque Curitiba é uma cidade bastante roqueira e o Psycho Carnival tem que ter um lugar cativo, porque foi um dos pioneiros nessa história.
Gabbie — Como professor de música, como você vê a formação das novas gerações de músicos no Paraná?
Celso Costa — Vejo que existe um interesse muito grande desses músicos em procurar conhecimento. Isso sempre existiu, é inerente ao artista. Agora, como eu digo sempre, todo fazer artístico não tem necessidade de necessariamente passar pelo meio acadêmico, mas o meio acadêmico, quando se interage com o meio artístico, gera bons frutos e gera conhecimento que você vai passar para as próximas gerações. Quem quiser conhecer um pouco dos Catalépticos vai acessar não só o meu trabalho, como outros trabalhos que existem na academia, e já vai ter uma referência, vai poder dar um passo adiante. É importante que essa cultura se registre.
Os músicos, cada vez mais, por conta da comunicação rápida, precisam trabalhar também a identidade visual. Se você comparar um músico dos anos 90, começo dos anos 2000, ele era um músico que tocava; o trabalho dele era tocar. Hoje em dia mudou muito. O músico já é um multifacetado, já tem a ideia da arte. Como vi esses dias o poeta Sérgio Vasco comentando, o século XXI é o século do artista. Todo artista tem que cuidar muito da própria imagem, ter posicionamento. Todo mundo quer saber o que ele pensa, o que consome, contra o que protesta. Ele tem que entender bastante esse posicionamento, porque os tempos são outros, os anseios são outros, os medos são outros.
Tocando no Paraná — a gente toca muito pelo estado —, percebo que a qualidade dos músicos está subindo absurdamente. Não digo só na técnica musical propriamente dita, mas na ideia de inovação, na ideia de incorporar um elemento. Nem sempre a técnica é a finalidade. É claro que isso é uma opinião própria, mas entendo a técnica como um instrumento, uma ferramenta para que você extraia do seu intelecto aquilo que quer extrair, seja uma técnica de pintura, melhorar o traço de um desenho ou melhorar um arranjo de uma música. Percebo que os músicos estão trabalhando muito esse aspecto artístico e de identidade também.
Fico muito animado porque o Paraná é algo que está para ser descoberto ainda. Não sou fanista de dizer que vai ter um boom, mas espero que cada vez mais bandas se projetem. Temos exemplos não só no rock, no psychobilly, mas na música pop: Jovem Dionísio aqui de Curitiba, Blindagem com 50 anos de banda, banda mais bonita da cidade. Temos várias bandas fora, não só os Catalépticos, o próprio Six Six Sinners — não puxando a farinha para o meu lado, porque estou há pouco tempo na banda, mas eu já era fã antes de entrar e tenho plena consciência da importância da banda para a cena. Vejo que o potencial desses músicos é praticamente ilimitado.
A questão agora é como criar uma identidade paranaense, como entender que essa música do Paraná é feita aqui. Isso passa muito por aquele velho papo de união de bandas, dos músicos se olharem, irem curtir um pouco o show do colega, apoiar também o outro e não somente a si mesmo. Sei que a vida é corrida, é difícil, mas isso tudo faz parte de um processo de criar uma cena e criar algo realmente relevante, não só local, mas também nacional e internacional.
Gabbie — O Psycho Carnival e a cena que o cerca funcionam como uma escola informal para jovens músicos. Como equilibrar o aprendizado acadêmico com a prática nas cenas das casas underground?
Celso Costa — Vou começar respondendo pela última parte. Quando você está inserido numa cena, é muito difícil dissociar a tua figura enquanto agente dessa cena para alguém que está pesquisando. Você tem que ter imparcialidade na hora de pesquisar. Se não tem imparcialidade, vira um publicitário daquilo. E não é a história. Com todo respeito aos publicitários, mas não é o foco da etnomusicologia.
Dentro da etnomusicologia, tem alguns teóricos que trabalham com o conceito do ético e do êmico. O músico êmico é aquele pesquisador que está inserido dentro da própria cena dele. O músico ético é aquele que é de fora daquela cena e pesquisa determinada comunidade. Um exemplo rápido: sou alguém que vai pesquisar música feita em candomblé, mas não sou candomblecista. Então peço permissão, consigo as autorizações e vou lá pesquisar. Só que, naquela comunidade, vários fatores extramusicais passam batidos porque eu não conheço os cânticos, não conheço determinada coisa. Quando estou dentro, o problema é que estou afetado demais pelo meio. Então o músico consegue ter um posicionamento a partir disso.
Tudo isso vai gerando uma imparcialidade e aquela ética que a pesquisa acadêmica propõe. A ideia é você criar uma chavinha na tua cabeça. É muito importante também não ser muito acadêmico na hora de tocar dentro de uma cena, porque a cena realmente não depende da academia. É até difícil falar isso como pesquisador, mas a cena, estando na academia ou não, vai existir do jeito dela. O que pode acontecer é um processo em que ambos se ajudem e a cena consiga determinadas coisas devido a esse respaldo acadêmico. Mas você tem que virar essa chavinha na hora de tocar: tem que expressar tua arte. A arte é livre. Ao mesmo tempo, no meio acadêmico, você tem que olhar de uma forma mais ampla, mais macro, sobre o teu objeto de estudo. Não é nada fácil, é um recorte, mas tem muita informação. Estou na área da música e, até na pesquisa de doutorado que estou desenvolvendo, preciso tirar elementos, porque senão acaba perdendo o foco da pesquisa.
Gabbie — Quando bandas como The Meteors vêm da Inglaterra para uma única data no Brasil, o que essa troca proporciona além do show? Na sua experiência, que aspectos da cultura paranaense esses artistas levam embora e que influências eles deixam na cena local?
Celso Costa — Já tivemos, em termos de psychobilly, acredito que os maiores artistas da história já passaram por aqui: Demented Are Go, The Meteors, Batmobile, Guana Batz. Essas bandas clássicas que meio que forjaram o gênero já passaram por aqui. A recepção deles é sempre muito interessante, porque eles têm aquela diferença cultural europeia. As rotas deles, se percorrem 1.000 km dentro da Europa, podem ter passado por quatro, cinco países. Aí eles vêm para um país de extensão continental, com questões seríssimas na logística, uma cultura totalmente diferente. Sempre é um aprendizado para eles, seja para o bem ou para o mal. O que importa é que geralmente percebemos que eles ficam bastante satisfeitos. Por quê? Porque preparamos um festival com uma estrutura que eles já estão acostumados: questão de horário, sonorização, trabalhamos muito sério com isso. Geralmente eles se sentem adaptados.
Para eles, tecnicamente falando, é mais um show, mas agora é um show num caldeirão. Porque o público latino tem uma vivacidade, uma garra, uma vontade. Como esses músicos não estão sempre por aqui, o público aproveita o show como se fosse o último da vida. Isso sempre impressiona: a recepção do público, a forma como o público se relaciona. É quase unanimidade entre esses músicos, que sempre pedem para voltar para cá.
Gabbie — Com quase 25 anos de existência, o Psycho Carnival já é um patrimônio cultural informal. Como profissional que vive entre a academia e a produção, como você vê caminhos para que essa história seja oficialmente reconhecida e preservada sem perder a essência underground que deu origem ao festival?
Celso Costa — O caminho é bastante árduo. Percebemos que 25 anos não são 25 dias. Toda essa questão de documentar o Psycho Carnival para que ele entre realmente na institucionalização, porque esse festival é tão importante. Dependemos muito da prefeitura nesse aspecto, do poder público. Passa pela Câmara dos Vereadores, existem interesses políticos por trás disso, obviamente. Mas o importante é as pessoas trabalharem pensando numa ideia de cultura, uma ideia de que todo mundo ganha com isso.
Quando você tem uma casa cheia de pessoas curtindo música, dificilmente elas vão estar fazendo outra coisa. Não vão estar indo para a criminalidade ou para algum caminho que não seja tão legal. A cultura realmente salva as pessoas, mostra caminhos. Inclusive trabalha questões muito sensíveis à sociedade de uma forma simbólica, onde você expressa tua verdade. O Psycho Carnival precisa ser cada vez mais fomentado.
É importante porque também trabalho com outras cenas musicais: música brasileira, produção de MPB, samba. Artistas internacionais, alguns deles já conhecem o Psycho Carnival. Existia um festival de carnaval de rock em Curitiba. Esse festival já é um patrimônio informal, mas agora é necessário que haja uma união não somente da nossa crew, da parte que organiza o festival, mas também das pessoas que usufruem dele. Acho que deve começar também um apelo por rede social, é importante depois conversar na Câmara, fazer uma articulação política, porque isso vai dar validade. A cidade ganha, todo mundo ganha com o Psycho Carnival.
Retomando uma das perguntas anteriores, o Psycho Carnival serve sim como uma escola para esses músicos. Muitas vezes os músicos nunca tocaram num festival grande, de maior porte. Chegam lá e não sabem se posicionar dentro do palco, não entendem como é a entrada e saída de músico, não entendem a questão do horário. É interessante porque eles já ganham outra visão. Se acontecer de irem para fora do Brasil, vão simplesmente reproduzir o que está sendo feito aqui. Por isso é importante. É uma profissionalização da cena, de você levar a sério o que está fazendo e respeitar esses ritos que acontecem em todas as outras cenas.
Agora estamos chegando num ponto em que precisamos dar o próximo passo: ele precisa se tornar um patrimônio cultural material da cidade. Sem dúvida nenhuma. Entendo que existe justificativa de sobra para isso. Já tem inclusive material acadêmico de sobra. Da parte da academia tem, da parte do público tem. Agora acho que é só ligar esses pontos e tentar trabalhar para que isso aconteça.
Gabbie — Obrigada.
Celso Costa — Obrigadão. Valeu. Espero ter falado nem de mais nem de menos.
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